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segunda-feira, 3 de junho de 2013

Acepção de Pessoas no Serviço Eclesiástico


Todos concordamos que devemos servir a Deus e ao Seu Reino. Todos também concordamos que, como Corpo, temos funções diversas e específicas. Porém, nem todos estamos vinculados ao serviço eclesiástico (trataremos aqui apenas deste serviço, não excluindo que o serviço ultrapassa ministérios dentro da igreja). A má inserção no Corpo de Cristo pode custar, muitas vezes, a vida de um cristão na igreja. Por causa de vaidades e orgulho, muitos são discriminados e colocados à margem por serem pré-julgados, antes mesmo de se integrarem fortemente ao Corpo de Cristo.

Existem muitos cristãos (consideraremos aqui cristãos verdadeiros, autênticos e sinceros diante de Deus) que se encontram em plena disponibilidade para servir, porém não encontram espaço na sua comunidade local, ou mesmo são desmerecidos e marginalizados em suas igrejas. Muitos desejam servir mais firmemente à Cristo, porém se sentem inúteis para a igreja. O olhar orgulhoso daqueles que já estão posicionados em seus ministérios, e que tomam iniciativas quanto ao trabalho pode colocar aqueles cristãos (chamaremos a eles de fracos a partir deste momento) em cheque sobre qualquer possibilidade de se envolver mais profundamente no serviço.

A Bíblia nos mostra alguns exemplos claros de inclusão e exclusão de pessoas no serviço. Veremos dois destes exemplos. A Palavra nos direciona à uma compreensão muito clara sobre a utilidade e a inutilidade de pessoas no Reino. Todos são úteis. Todos apresentam uma função, referente aos dons delegados pelo Espírito. Além disso, definir a aptidão ou não para exercer um ministério ou trabalho na igreja nos coloca na posição de juízes (se este julgamento for feito em função apenas de achismos, e não pautado em argumentos sólidos). Quando o debate extrapola a aptidão relacionada ao compromisso real com Cristo, é perceptível que estamos julgando por motivos secundários, não o requeridos do servo fiel.

Paulo, de forma muito clara, exclui e divide seu projeto missionário por causa de Marcos (At. 13:13; 15:36-41). Marcos se dispôs a servir, porém desiste no meio do caminho de uma das viagens, e é convidado a se retirar do próximo projeto de Paulo. Em um primeiro momento, é perceptível a irritação do apóstolo, e sua total descrença de que Marcos poderia ter alguma utilidade, tendo em vista seu comportamento anterior. Marcos não era mais uma boa opção para trabalhar, pois não era mais digno de confiança.

A vida pregressa tem sido utilizada, muitas vezes, como fator impeditivo na inserção de membros no serviço à Cristo na igreja. A multidão de pecados encobertos pelo amor e misericórdia de Deus (I Pe 4:8) acaba ficando guardada por nós, e impedindo que o serviço ocorra e que a vida siga.

Paulo, mais à frente em sua caminhada, reintegra Marcos em sua missão, e o considera “muito útil para o ministério” (II Tm 4:11). Sugiro aqui que Paulo tenha mudado, e não Marcos. O seu abandono no passado não foi apagado: ele continua sendo vívido na mente de Paulo. Porém, Paulo certamente passa a ter uma nova compreensão da missão de Marcos, e de sua importância, apesar do que passou. Ele entende que Marcos não pode ser excluído, pois é um irmão em processo de amadurecimento e santificação, e que precisa estar enxertado na videira.


Davi também demonstrava um certo “descaso” com a escolha dos que o seguiam (I Sm 22:1, 2). Davi liderou, por um período, um grupo de personas non gratas, que jamais seriam aceitas para servir ao futuro rei, à época. Davi reinsere esses homens ao serviço, e os dá utilidade e motivação para olharem à frente. Esses seriam seus futuros homens de confiança. Dignidade é dada a eles, e não desconfiança e descrédito.

Dietrich Bonhoeffer, em seu livro “Vida em Comunhão” nos leva a refletir sobre a importância que se tem o serviço na vida da comunidade. Ele afirma:
“Na comunhão cristã, tudo depende de que cada pessoa se transforme num elo indispensável de uma corrente. A corrente será inquebrável só quando o menor elo engrenar com firmeza também. Uma comunidade que tolera a existência de membros que não são aproveitados irá à ruína através deles. Será, pois, conveniente que cada pessoa recebe uma tarefa determinada dentro da comunidade, para que, em momentos de dúvida, saiba que também ela não é inútil e inaproveitável. Toda comunhão cristã deve saber que não apenas os fracos necessitam dos fortes, mas que também os fortes necessitam dos fracos. A exclusão dos fracos é a morte da comunhão. Não será a autojustificação e, por conseguinte, a violação que governará a comunhão cristã, mas a justificação por graça e, por conseguinte, o serviço. Quem, alguma vez, experimentou a misericórdia de Deus, dali por diante só desejará servir.”

O cinismo é um câncer na igreja, desde a sua origem. O cínico não se preocupa com as almas, mas se preocupa com as regras. Ele não se preocupa com o Reino, mas se preocupa com os projetos específicos que levam o seu nome. Ele não se sente confortável com o fato de alguns serem destacados antes dele. Ele não suporta que pessoas cresçam, ou que sejam inseridas em posições que ele mesmo julga que não mereçam. Ele está olhando o presente, e não o futuro. Ele olha a propriedade, e não o Dono dela. O cínico considera que conhece as motivações dos que são incluídos no Corpo, mas jamais terá essa capacidade de análise.

Logo, cada um pense pequeno a respeito de si mesmo (Rm 12:3), e não bloqueie o caminho, para que todos sirvam. Se Deus não nos escolhe por nossos méritos ou motivações, que não façamos o mesmo com nosso próximo, rompendo com seus ensinamentos.

terça-feira, 27 de novembro de 2012

Pobre de mim... Pobre de nós...

Como fazer para derrotar o orgulho? E como fazer a humildade imperar em um reino onde a amargura, o ressentimento e a falta de perdão insistem em impregnar nas pessoas?

Todos são orgulhosos, mas eu não! Jamais, enquanto criatura salva, poderia deixar o orgulho reinar em mim! Sou realmente mais destacado, e tenho certeza de que faço sempre a vontade de Deus!

E quanto ao pecado? Todos à minha volta tem a ficha suja, mas eu não! Os meus pecados são mais leves, são deslizes apenas. Deus não se importa tanto com os meus, pois Ele conhece o meu coração!

E assim, a igreja vai cedendo à vontade do anjo de luz, brilhando (?) em cada membro, em separado, mas nunca iluminando o céu com um clarão de luz completa.

A começar por mim, quero ver meu orgulho quebrado, humilhado, destruído. Quero sentir a alegria de, no pó, no lamaçal de pecado, orgulho e dor, sentir o sangue me lavando, e me mostrando que sou um com o outro.

Os fracos pecam pelo orgulho, os fortes pelo desprezo. Enquanto todos os elos não estiverem ligados à corrente, jamais experimentaremos comunhão verdadeira. Pobres de nós! Tamanha riqueza à frente, e nunca a conheceremos!

sábado, 27 de outubro de 2012

Por que os jovens saem da igreja? [Parte 1]

Creio que todo jovem nascido em lar cristão já se questionou sobre sua frequência à uma igreja, ou quanto à adesão ao cristianismo. Pois eu também já fiz questionamentos sérios, e sinto que sair da igreja passa pela cabeça de muita gente, incluindo, talvez, você!

Uma coisa me intrigou bastante ao me deparar com o desafio de falar a um grupo de adolescentes em um acampamento recente. Leitor assíduo de Paul Washer, e assistente de seus sermões, fico admirado ao ver em sua postura o desejo que as pessoas levem Deus a sério. Esse pregador (aconselho que assistam a esse sermão, para conhecê-lo melhor) que busca trazer a realidade bíblica de pecado e inferno para os seus ouvintes me inspirou a pesquisar os motivos pelos quais jovens deixam as igrejas todos os dias. E lá fui eu atrás dos dados que me assistissem nessas constatações.

Ao longo dos próximos posts (não sei quantos serão ainda), falarei sobre minhas impressões a respeito da pesquisa encontrada nesse site, que já apresenta inclusive análises do presidente do Grupo Barna, responsável pela pesquisa. Espero não ser repetitivo, mas que Deus possa conduzir o pensamento, levando-nos a refletir sobre uma realidade que ameaça diretamente a igreja.

Antes de começar a falar dos resultados da pesquisa, precisamos entender em que contexto vivemos, tanto dentro da comunidade cristã, quanto fora desta. Essa análise é muito importante, pois nos auxilia a ver em que mundo estamos pisando, e como esse mundo nos influencia, direta ou indiretamente.

O mundo em que vivemos

Primeiramente, precisamos entender o mundo que nos envolve, e diariamente nos bombardeia com informações e valores dentro de nossas casas. 

Uma das características mais marcantes de nossa sociedade é a relativização das ideias e das verdades presentes em nossas vidas. Guilherme de Carvalho é bem claro ao afirmar que, no mundo, todas as coisas são relativas, à exceção de Deus. Quando tiramos Deus de foco, e passamos a colocar os referenciais nas coisas e nas pessoas, perdemos qualquer dimensão universal e inquestionável para nossas ações. A partir de então, a minha verdade é soberana, inclusive sobre a do próximo. Os questionamentos não são mais bem vindos, e o respeito deve prevalecer para que haja boa convivência entre as pessoas. Quando Deus é removido do horizonte, ficamos apenas com o que somos. Coisa terrível é sermos lançados sobre nós mesmos.

Além da relativização das verdades, vivemos em uma sociedade imersa em inovação. O tempo se move mais rápido, e o que é antigo se torna desprezível. C.S. Lewis dá um nome à esse movimento de Esnobismo Cronológico. É como se aquilo que é antigo não tivesse valor, por estar ultrapassado. A nossa sociedade, além de não querer envelhecer, apresenta enorme resistência àquilo que considera ultrapassado: religião, abstinência sexual antes do casamento, constituição familiar, moral e ética, tudo vem sendo lançado fora das reflexões diárias por estarmos vivendo em uma sociedade "avançada", onde não precisamos mais de muletas criadas no passado para viver.

Obviamente, considerando a relativização das verdades e o esnobismo cronológico, seria fácil deduzir que as famílias não apresentam mais o mesmo ambiente e segurança dos quais nossos avós puderam presenciar. A estrutura familiar, além de considerada ultrapassada, já não é mais fundamental para que a sociedade funcione de maneira harmônica. A relação conjugal passou a ser uma relação contratual, onde cada um cumpre com seu papel, e em caso de descumprimento, o rompimento do contrato. Filhos, projetos, todos ficam à mercê do gosto dos casais, que se propõem cada vez menos a enfrentar a dura vida conjugal.

Não bastasse a estrutura familiar ruída, ainda convivemos com os que fogem de qualquer realidade que envolve compromissos. Nossa sociedade vive uma febre hedonista que nos remete à antiga Roma. Buscamos o nosso próprio prazer a qualquer custo sem pudor algum. Pagamos nossas contas, e fazemos o que quisermos, sem prestar contas a ninguém. Nossa sociedade constrói ídolos cada vez mais desconexos da nossa realidade, pautados apenas na busca pela satisfação de seus desejos, conseguidos com dinheiro fácil e com projeção na mídia.

Bom, esse é o cenário que podemos perceber, sem dificuldade alguma, ao olhar ao nosso redor. Porém, nossas igrejas também estão cheias de problemas.

A igreja em que vivemos

Nunca na história da igreja se percebeu tamanho descompromisso dos pais com a educação cristã dos filhos. Salvas raras exceções, não percebo movimento algum nas famílias para manter os cultos domésticos, ou sequer um crescimento do conhecimento da Palavra nas crianças, que não ultrapasse a educação dada nas escolas dominicais.

Assim como no mundo, os pais de dentro da igreja estão terceirizando a educação cristão de seus filhos. Não precisa de ir muito longe para entender a antibiblicidade desse descaso (I Tm 4:12; Pv 22:15; Pv 23:13-14).

É perceptível, talvez até por consequência da educação recebida, a falta de compromisso e o esfriamento dos jovens na igreja. E aqui eu quero me ater a um ponto importante. Jovens avivados, conforme o próprio Paul Washer concebe, não tem nada a ver com cultos jovens animados, regados a músicas animadas, saltos, lágrimas e qualquer tipo de expressão momentânea de sentimento. Creio que o anseio pela leitura da Palavra, vida de oração e a busca por conhecimento de Deus, através de livros teológicos e de textos que busquem responder às questões relativas à realidade são os principais meios de demonstração de avivamento. Como diz o salmista, assim devemos dizer: "escondi a Tua Palavra no meu coração, para eu não pecar contra Ti" (Sl 119:11).

Outro reflexo que podemos observar em nossas igrejas diz respeito ao aumento dos "desigrejados". São pessoas que aderiram à alguma denominação evangélica, mas que sofreram alguma decepção, ou não fora satisfeitos em suas expectativas, e hoje estão fora da igreja. Esse número tem aumentado consideravelmente, e em muito por culpa das próprias igrejas, que vendem um evangelho barato e palatável, omitindo o que realmente importa, e criando crentes que nunca evoluirão na fé.

Por fim, quero enfatizar um fato que é constatado estatisticamente, para tristeza das lideranças eclesiásticas no mundo: o cristão tem vivido como o não cristão. Não temos diferença alguma com relação às demais pessoas que professam outra fé, ou fé alguma. Reportagem da Cristianismo Hoje relata, de maneira bem clara, que 56% dos evangélicos já fizeram sexo antes do casamento, e 25% já traíram. A constatação da pesquisa é tão relevante quanto os dados: "Isso não quer dizer, evidentemente, que o evangélico traia mais", ressalva Danilo Silvestre Fernandes, idealizador do Bepec e da pesquisa. "Apenas que os crentes, em diversos aspectos, não diferem tanto assim das pessoas que a Igreja convencionou chamar como ‘do mundo’.".

Com vistas nesses dois cenários quero finalizar essa primeira parte dos estudos. A intenção aqui não é avaliar se os jovens se converteram ou não nas igrejas, mas constatar o que a igreja pode fazer para apoiar seus jovens e permiti-los ter um ambiente que proporcione um relacionamento profundo com Deus.
Fiquem na paz!
Escondi a tua palavra no meu 

terça-feira, 3 de julho de 2012

Ovelhas supervisionadas, produtividade e avivamento

Para quem pára e se depara com o título, acredito haver grande questionamento se o mesmo tem algum nexo ou não. O fato é que para mim eles fazem muito sentido se colocados na ótica correta.O texto está um pouco extenso, mas acredito que conteve tudo que queria externar. Algumas experiências aqui são do passado, e ficaram por lá. Apenas retomo ao passado por entender que o mesmo nos ensina e nos impede de vacilar no presente e no futuro. Não é intenção do texto discutir o fato, mas apenas tirar aprendizado da experiência. Portanto, vou me ater aos detalhes que julgo importantes para a reflexão apenas.

Esses dias me coloquei em uma discussão sobre as igrejas emergentes com um amigo  (por enquanto) virtual, e sobre a grande vontade de alguns cristãos de terem um ambiente mais prazeroso e adequado para se viver o cristianismo verdadeiro. Me deparei, ao ler os documentos e comentários, com uma sombra do passado que vivenciei em uma igreja que viria a se tornar emergente. Não necessariamente minha experiência será a mesma de todos, mas é de se temer que isso ocorra. 

Ao iniciar meu mestrado, e após frequentar durante quatro anos uma igreja excepcional, em Viçosa (a IPV), voltei para BH e procurei durante alguns meses algum local para congregar. Encontrei no meu bairro uma igreja iniciante, com projetos bem interessantes. O pastor titular me acolheu bem, e me falou sobre algumas ideias super legais que me encheram os olhos. Bibliotecas, livraria, prédio multiuso, intercâmbios internacionais, oportunidade de continuar meus projetos missionários, e por aí vai.

Quando cheguei à igreja, a mocidade estava apenas começando, e éramos apenas 3 pessoas com idade e status civil (solteiros) para formar a mocidade. Foi-nos delegado um pastor auxiliar, com o intuito de tocar o projeto. À princípio, percebemos uma certa dificuldade de aproximar os jovens, visto que muitos que frequentavam não eram do bairro, ou não estavam a fim de se comprometer com o grupo. Ninguém é obrigado mesmo, mas foi bastante custoso iniciar os trabalhos.

Com o passar do tempo, o grupo foi crescendo, e notei algo interessante: o que movia e unia o grupo não eram os interesses em comum. Éramos por demais diferentes. O que nos unia era a presença e empenho do pastor auxiliar, que com toda a dedicação do mundo, apesar do grupo pequeno, enxergava ali pessoas que precisavam de comunhão.

As pregações daquela igreja eram quase sempre ministradas pelo pastor titular. O pastor auxiliar, que trabalhava com os jovens, pregava a cada 3 ou 4 meses. O teor das pregações do pastor titular também eram um tanto quanto estranhas. Além de repetir inúmeras vezes alguns de seus sermões, o mesmo não apresentava uma visão parcial do caráter de Deus. O Deus apresentado nas pregações era apenas amor, compassivo, achegado ao pecador, e quase que incapaz de punir uma pobre ovelha, vítima de seus pecados! 

Além disso, nossa igreja era considerada especial! Eram-nos apresentados projetos que renderiam o bairro, a cidade, o país aos pés de Jesus! Porém, não fazíamos nada de diferente das outras igrejas! Viagens para fora do país para buscar recursos que retornaram totalmente improdutivas, projetos de compra de terrenos que eram veiculadas no púlpito, inflamavam a igreja e depois acabavam indo por água abaixo, e por aí vai. Comecei a perceber também que algumas pessoas, anteriormente ativas na igreja, acabavam por se tornar membros "de banco".

O que acontecia era mais ou menos assim: os projetos eram lançados nas mãos dos membros para motivá-los a se estabelecer na igreja. Membros neófitos recebiam cargos e funções de grande impacto para a igreja, e geralmente isso se dava com pessoas em boas condições sociais e econômicas. Quando os projetos estavam pequenos, a pessoa se matava de trabalhar. Quando os mesmos começavam a crescer, o pastor se aproximava e reorientava todo o trabalho para que ficasse a sua cara. Saía em todas as fotos e se esbanjava ao mostrar como seu trabalho era profícuo. E foi assim também com a mocidade...

Conversando com algumas pessoas, vi que os membros se cansavam e se esgotavam com o trabalho, e entravam em constante atrito com o pastor titular. E aí não demorou muito tempo para que eu fosse atingido também. 

Resumindo (ou tentando resumir) a história, os membros que não participavam mais de perto das ações da liderança se encantava com as pregações no púlpito e compravam a ideia de que nossa igreja era a salvação do mundo. Os projetos ganhando corpo tinham maior ênfase na pessoa do pastor titular, e o mesmo sempre fazia questão de colocar-nos como uma igreja com visão destacada, que fugia da denominação à qual estávamos filiados.

Resultado: a igreja rachou. Não somente por esses motivos, mas também por esses. Uma nova igreja foi criada com outra denominação. Os "especiais" se tornaram uma igreja livre das amarras denominacionais, e se renderam aos projetos impressionantes do pastor titular. 

A história é longa, e tem outros melindres que não cabem aqui. Se chegou até aqui, peço mais paciência para entender onde tudo se encaixa.

A igreja evangélica brasileira apresenta na figura do pastor um símbolo de grande porte relacionado com santidade, poder, corretude e divindade. Não é difícil encontrar com um evangélico que, ao ouvir um pastor dizer algo, toma aquilo como verdade sem sequer analisar o que está sendo dito. A palavra do pastor é a máxima em qualquer assunto, e o mesmo deve sempre se pronunciar, para que as ovelhas se sintam seguras.

Ora bolas, Jesus cuidou de seus discípulos, preparando-os sempre para quando Ele não estivesse mais aqui. Se não houvesse essa preocupação e dedicação por parte do Messias, dificilmente o evangelho teria ganhado os contornos que ganhou após sua ressurreição. Mas não é isso que vemos nos dias atuais. Os pastores preparam suas ovelhas para serem sempre dependentes de sua liderança. Tratam-nas como coitadas, e não ensinam os seus discípulos a caminhar a vida proposta pelo evangelho de maneira plena. Resultado: rebanho tacanho, imaturo, sem ânimo e totalmente dependente do que o pastor falou ou ordenou.

Ovelhas supervisionadas são mais fáceis de controlar. Porém, até onde isso fortalece o Corpo de Cristo? Ao meu ver, isso nos faz regredir.

Daí, partimos para outro ponto que me inquieta bastante. Além de supervisionadas, as ovelhas são cobradas por sua "produtividade"! Quem não trabalha na igreja, não está servindo! Quem não tem ministério, está sendo negligente com Jesus, e certamente em pecado, uma vez que não está servindo à Deus! 

A Reforma Protestante foi um marco histórico, e que mudou a concepção dos cristãos em relação ao trabalho. Quando foi entendido que tudo é sagrado, menos o que envolver o pecado, quebrou-se a dicotomia natureza-graça, ciência-religião, trabalho-igreja e qualquer outra que contamine o evangelho deixado por Jesus. Porém, parece que as lideranças atuais querem voltar ao modelo medieval-católico-romano. Esquecem de alimentar suas ovelhas para o dia-a-dia, de segunda a sexta, e apenas ensinam à essas que a vida e aquilo que é importante se resume ao fim de semana, quando estão todos na redoma da sua congregação local.

Somos chamados para viver uma vida integral diante de Deus. Não é certo faccionar momentos sagrados e momentos seculares. E muitos pastores pregam isso! Mas não permitem que suas ovelhas vivam o que pregam! Quantas vezes você ouviu em uma pregação sobre a importância do profissional cristão na proclamação da soberania de Cristo em todas as áreas? Quantas vezes você ouviu uma palavra de motivação no púlpito para o advogado, médico, juiz, ou outro profissional que abre mão de benefícios ilícitos em prol do evangelho? Quantas vezes já se ouviu sobre as vocações científicas da igreja, que são fundamentais para que a academia não caia nas mãos de neoiluministas?

E aí, as ovelhas supervisionadas, cobradas por produtividade eclesiástica, ainda sofrem quando querem se tornar livres. Me parece que na igreja evangélica brasileira (não estou generalizando, apenas ponderando sobre a maioria), é proibido pensar, como diz João Alexandre em sua polêmica música. Questionar os trabalhos, ou discutir os projetos é algo proibido também. Devemos confiar cegamente que tudo está sendo feito da melhor maneira possível. Críticas não são bem vindas. São coisas do inferno para derrubar lideranças. Reuniões de todas as esferas da igreja devem ter a presença máxima do pastor da igreja, com o intuito de impedir erros ou desvios na caminhada.

E aí eu chego ao avivamento. Pode parecer pesada toda essa exposição, e não me eximo dos erros que eu possa ter cometido ao deliberar sobre esse assunto. Caso os tenha cometido, já peço perdão de antemão àqueles que se sentem injustiçados. Mas continuo com minha posição firme, que pode apontar uma saída diante desse quadro tenebroso. O avivamento é a solução para a igreja brasileira. E o avivamento se resume a oração fervorosa e constante e estudo da Palavra. Nada mais do que isso. Não envolve trabalhar mais na igreja, encher a paciência de toda a sua família com versículos decorados, nem de megashows na praça com cantores famosos.

Não existe cristão mais inútil do que aquele que não estuda a Bíblia (disse um teólogo que não me recordo no momento). Não há cristão mais inútil do que aquele que não questiona aquilo que ouve, ou que não confronta o que não condiz com aquilo que crê. E aí temos um problema. Cristãos que querem o verdadeiro avivamento, a meu ver, não se enquadram no modelo de igreja criado pelos líderes atuais. Eles irão criticar veementemente o que acham errado. Eles terão iniciativa para projetos que vão além da alçada e competência pastoral. Eles não se preocuparão com a produtividade, pois guiados pelo Espírito farão aquilo que é demandado por Deus.

Voltando ao exemplo dado no início do texto, não é difícil de se vivenciar a tentativa de controle total de uma igreja por parte de lideranças. Devemos valorizar líderes que se desprendem do ego pastoral, e que, como pastores, apoiam os ministérios e as vidas em sua igreja de forma saudável. Devemos valorizar líderes que entendem que a igreja é uma das esferas da vida do cristão, e que respeitam suas ovelhas, não tratando-as como massa de manobra, ou mão de obra para seus projetos pessoais. Devemos desencorajar e desarticular a mentalidade cristã que reprime a crítica. 

Não tenho a intenção aqui de julgar ninguém, muito menos de criar inimizades. Porém, não posso me deter a falar o que nos é ensinado todos os dias por Deus, em Sua Palavra. E a Palavra, felizmente, me exime de qualquer acanhamento ao procurar lutar por uma igreja que perfaça a Vontade maior, perfeita, séria, coerente e que não envolve interesses próprios nem achismos.

Que Deus nos ajude!

segunda-feira, 14 de maio de 2012

A Plenitude do Espírito e o Dom de Línguas

Já fazem algumas décadas que o movimento Pentecostal tem crescido e ganhado uma boa parcela da população brasileira para seus apriscos. Com o surgimento de novas denominações neopentecostais, há de se notar ainda que o volume de evangélicos no Brasil apresentou um aumento significativo, o que nos leva a refletir sobre o que tem sido pregado nos púlpitos que ganham tantos fiéis em nossos dias.

Uma das doutrinas mais enfatizadas diz respeito aos dons espetaculares do Espírito, o quais são a profecia, o dom de línguas e o dom de curas. Não é difícil de ligar a TV e ver pessoas sendo curadas e profecias sendo cumpridas em pregações com mais de dez mil fiéis, que vão em busca de alimento e de uma palavra que dê sentido e ânimo à vida deles. 

Apesar do coração sincero, e de não podermos negar que Deus pode agir (e o tem feito) no meio pentecostal, precisamos, como pessoas dotadas de razão e da Palavra, analisar as doutrinas que têm fundamentado esse movimento, e levado muitas pessoas à Jesus, mas também levado muitos ao total desespero e desilusão com Deus, a igreja e com as pessoas que ali se encontram.

Nessa aula tratamos do tema 'Plenitude do Espírito e o Dom de Línguas', na tentativa de desfazer equívocos em relação ao recebimento de línguas como sinal de segunda benção por parte do cristão. Também são julgadas as manifestações de línguas seguindo as doutrinas paulinas de I Co 12-14. Espero que seja de proveito aos que se interessem pelo assunto, e me coloco à disposição para eventuais dúvidas. Aconselho o vídeo aqui colocado, como forma de salientar a visão reformada desse dom.




Alguns livros que podem ajudar no entendimento aqui exposto são A Verdadeira Obra do Espírito, de Jonathan Edwards, O que estão fazendo com a igreja?, de Augustus Nicodemus, este texto do pastor José Ribamar, e a Carta Pastoral da IPB sobre o assunto, e no qual as aulas foram baseadas.

segunda-feira, 26 de março de 2012

O púlpito e o Rebanho

Muito se têm questionado a fé cristã desde o nascimento do cristianismo, no século I. Após o Iluminismo, além de questionada, a fé cristã passou a ser desacreditada e combatida com mais força, começando de dentro da academia, e causando grande repercussão em nossa sociedade, que tem se tornado cada vez mais cética. Atualmente, além dos esforços externos de desconstruir a fé cristã, percebemos que dentro das próprias igrejas têm havido movimentos (na maior parte involuntários) que acabam por ter o mesmo efeito. Explico.

Não é novidade que as denominações neopentecostais (onde estive por um ano) apresentam uma teologia deformada com enfoque na prosperidade e na total sujeição das ovelha à liderança dentro dessas denominações. Essa entrega parte da ideia de que as doutrinas neopentecostais são inquestionáveis, o que facilita o 'emburrecimento' dos membros, que não apresentam critério algum para julgar as ações e decisões tomadas, bem como as instruções recebidas pela liderança dessas igrejas.

Esses movimentos, apesar de obterem um aumento considerável no número de membros, têm também deixado muitos de seus fiéis no meio do caminho. Vemos com muita frequência pessoas decepcionadas com essas lideranças, desigrejadas agora por não acreditar mais que a igreja é um lugar onde se vive um cristianismo sincero e sem interesses escusos. Além disso, outros são levados a abandonar a igreja por entenderem que há uma total ausência de sentido em algumas práticas, que só levam em conta o emocionalismo e a total entrega às experiências 'espirituais', desfacelando o cristianismo autêntico.

Por outro lado, tenho percebido que há um evangelho sendo pregado em igrejas históricas (por incrível que pareça) que também deixa-nos em uma situação desajustada. Há na fala de muitos pregadores uma certa marginalização do tema da graça, enquanto que a disciplina, a cobrança e a demanda por obras têm recebido uma ênfase maior. É nesse ponto que desejo me ater.

O desvínculo da teologia pregada no púlpito com a graça faz com que a fé perca seu pilar maior, causando algumas consequências, dentre as quais destaco a desmotivação na caminhada de fé por parte das ovelhas e até mesmo o surgimento de um falso 'avivamento' (para ler mais, dê uma olhada em 1), onde as ovelhas são forçosamente motivadas pelo cajado mais do que pelo Espírito. Nesses casos, o medo se torna o motivo para a ação, e a busca pela glória de Deus acaba sendo deixada de lado.

A exortação que vem cheia de ira faz com que sejam lançadas no púlpito palavras pesadas e que não levam em conta que o nosso Deus é cheio de graça, e que o Seu amor cobre multidões de pecados, e impele seu povo ao Ministério. A disciplina não pode ser tema central das pregações, e o evangelho não pode ser empurrado 'goela abaixo' para os fiéis, que muitas vezes merecem a disciplina, porém não dessa forma.

Jesus sempre confrontou os religiosos. Ele se compadecia dos humildes e dos fracos. Aqueles que achavam que eram alguma coisa constantemente recebiam adjetivos pesados e difíceis de serem digeridos. Em nossas igrejas, certamente encontramos os dois públicos: religiosos (no sentido ruim da palavra) e devotos sinceros. Pessoas que precisam ter um despertamento para as verdades bíblicas, e pessoas que estão vivendo uma vida coerente e lutam por isso. Creio que a sensibilidade de quem prega deve ir além de um desejo interno de induzir o rebanho aos seus ideais. Deve-se corrigir em amor, e amar com disciplina. Todos somos devedores e servos inúteis, porém essa compreensão só é dada pelo Espírito, quando este tem liberdade para agir.

Exigir que a igreja viva para aquilo para o qual não foi despertada pelo Espírito é, ao meu ver, um atentado à fé e à graça. Deus opera em nós o querer e o efetuar, Ele nos constrange e nos exorta de modo que não temos reação outra senão responder ao Seu chamado. Temo que a submissão às doutrinas que têm em conta metodologias para alcançar a vontade de Deus sejam bem vindas no povo do Senhor. Fugir das filosofias humanas respaldado em uma ação irracional e inconsistente, que descarte o fato de que Deus é o Senhor da Igreja é, no mínimo preocupante. É criar uma filosofia pessoal, que apenas rejeita as demais. E não passa disso. É a rejeição do conhecimento da humanidade em favor do entendimento individual de um ser humano.

Desejo que a graça volte a ser pregada como tema central dos púlpitos, e que o amor de Deus seja o agente que constranja o seu povo a agir e a viver uma vida mais ativa com o Pai. Não acredito, de modo algum, que alguma metodologia venha a promover uma ação maior da igreja em qualquer âmbito. Que Deus dê discernimento ao Seu povo, do qual faço parte e desejo ardentemente que Ele seja Vida em nós, Luz sobre nosso caminho, e a Filosofia (com F maiúsculo, que vem do alto), coerente e cheia de frutos para os que nEle esperam.

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